Os dias de um recém-licenciado

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Há pouco lia neste site um pequeno texto sobre a problemática dos profissionais recém-licenciados.

Os recém-licenciados representam cada vez mais uma espécie de mão-de-obra qualificada e barata, acessível e manipulável. Em silêncio, vão sendo transformados em escravos modernos. A difícil procura de emprego, o défice de oportunidades e a formação em áreas sem saídas profissionais imediatas, tornam os jovens pouco exigentes. O mercado trata de aproveitar isso e absorve-os em estágios profissionais mal remunerados. Ao contrário dos meus colegas, não me consigo motivar para ir empregar-me numa empresa de comunicação a receber 300 ou 400 euros por mês. Ao mesmo tempo que um operário da construção civil recebe três vezes mais à hora do que uma gestora de recursos humanos, damos connosco a pensar: que país é este?

Licenciados de todo o país, revoltai-vos! Ou fazei as malas e emigrai!

De facto, estamos perante um pertinente assunto.

Do cenário acima descrito notam-se duas opções – ou se manda o curso às urtigas e vai-se para a propaganda médica…, ou então ruma-se ao estrangeiro. Para além destas duas hipóteses junta-se a dita terceira (amarga, sem dúvida) onde convergem os interesses de ambas as partes, empregado e empregador. A saber: fica-se no país, ganha-se experiência, conhece-se o meio e a “praça” e promove-se o ingresso na respectiva ordem profissional. O empregador, na grande maioria, estabelece um vínculo precário como acima está retratado, injusto e cruel. Esta opção pode ter ainda uma designação mais apropriada de: Aguenta-te, não arreies e espreita as putativas promessas.

Voltando ao início e aos aspectos das duas opções iniciais, sabemos que seguir a primeira seria uma imprudência, a não ser para alguém de Farmácia ou de Química (quando muito). Afinal para que servem as competências adquiridas numa licenciatura senão para seguir uma profissão no sector. Optar pela segunda e rumar ao estrangeiro, para a esmagadora maioria dos recém-licenciados, não seria uma opção muito sensata, porque com 21 anos de idade (pós-Bolonha) e verde que nem uma alface nunca seria um bom começo. A adversidade do meio num país estrangeiro seria desastrosa e teria sequelas.

Daí a terceira opção se configurar a mais adequada do leque. Certo é que todas as circunstâncias e debilidades são exploradas pelos empregadores, e isso diz respeito ao seu carácter e à sua visão. Mas, além da competência técnica individual e da indispensável vontade de vencer, diz respeito também a uma associação profissional que deve pugnar mais pela dignidade dos associados, sejam eles juniores ou seniores.

A meu ver, evitaria mandar a toalha para o chão e não diria que viesse o diabo e escolhesse. Sem lugar para grandes dúvidas, com a actual conjuntura, faria entre 6 a 12 meses aqui no país, reunia todas as valências que pudesse e iria posteriormente trabalhar para o estrangeiro.

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15 Respostas to “Os dias de um recém-licenciado”

  1. nuno coelho Says:

    APOIADO,

    AS GRANDES EMPRESAS APROVEITAM SE DO PESOAL RECÉM LICENCIADO.

    TEMOS QUE DIZER NÃO A ESSES VIGARISTAS.

  2. Jacinto Sepúlveda Says:

    “faria entre 6 a 12 meses aqui no país”

    nem mais…como recém-licenciado foi-me dado o conselho de ir para os estrangeiro, mais propriamente para Angola..mas a minha opinião é que sem experiência já é difícil vingar aqui em Portugal..que fará lá fora um cordeiro atirado aos lobos, leões, tigres, hienas e tudo mais?

    se não for verdade isto, esperamos que alguém confirme o contrário

  3. xm carreira Says:

    A vida é dura em todo o Sul da Europa. A geração dos mieluristas
    Como disse um professor meu: vocês têm tres saídas profissionais, por terra, por mar e por aire.

  4. xm carreira Says:

    http://pimentanegra.blogspot.com/2007/04/os-mileuristas-gerao-encalhada-nos.html

  5. Victor Figueiredo Says:

    Essa dos mileuristas está bem observada. Li o artigo do blog e pareceu-me muito interessante. Se eu tivesse uma editora comprava os direitos e mandava traduzir o livro amanhã…
    Todos somos produtos da nossa sociedade, uns mais bem acabados outros menos bem. Julgo que há outro factor que também conta que é o de estarmos na hora certa no local certo, e isso tem também a ver com oportunidade.
    Já agora recomendo a leitura de uns estudantes portugueses na univ. de Compostela:
    http://dn.sapo.pt/2007/09/03/sociedade/portugueses_a_estudar_espanha_temem_.html

  6. xm carreira Says:

    A imprensa portuguesa, nomeadamente lisbonense, pode chegar a graus de chauvinismo e sensacionalismo realmente engraçados. Não há qualquer tipo de xenofobia contra os portugueses tal e como tenciona fazer crer a notícia do quotidiano.

    O governo espanhol fez uma má lei de harmonização europeia para fazer as coisas mais simples para os estudantes europeus.

    http://www.laopinioncoruna.es/secciones/noticia.jsp?pNumEjemplar=2445&pIdSeccion=8&pIdNoticia=116498

    E o problema é que actualmente as condições para o acesso à universidade espanhola dos cidadãos europeus são bastante mais fáceis do que para os residentes na Espanha e, obviamente, surgem os problemas de inveja entre alunos.

    Sempre houve muitos portugueses na Faculdade de Medicina da Universidade de Compostela, mas antes tinhan de passar a mesma prova de acesso que os locais (a “Selectividad”) e uma prova de língua espanhola, e agora não, com o ensino secundário português é suficiente. Além disso, a escala de valores portuguesa (0-20) não tem uma correspondência exacta com a espanhola (0-100) prejudicando bastante aos estudantes da região.

    A culpa não é dos concidadãos da UE (sejam portugueses, franceses, eslovenos, etc…) mas do governo espanhol que não soube adaptar bem a harmonização que pedia a UE. Finalmente a solução passará por criar mais vagas (50 mais) e readaptar a lei de acesso ao ensino superior para o próximo ano.

    Nunca ouvi falar em problemas de convívio com os portugueses em Compostela e estou certo de que não vai haver.

  7. Jacinto Sepúlveda Says:

    eu por acaso vi uma reportagem na RTP a falar disso. realmente é muito interessante a quantidade de alunos portugueses em Espanha. Mas penso que levanta uma nova questão, porque é que esses alunos tem qualidade suficiente para serem médicos em Espanha e não em Portugal.

    Isto faz-me rir..vão estudantes portugueses tirar medicina para Espanha e depois vem médicos espanhóis para Portugal trabalhar…lol

    Mas que continue assim…..se acham bem

    Em relação aos engenheiros..esta-se a notar que o mercado está a ficar igual aos dos professores..o bastonário disse que se deveriam reduzir em cerca de 80% os cursos de engenharia…até certo ponto concordo..mas não no numero de cursos, mas sim no numero de vagas..e dar uma maior e melhor formação a esses que entram, tentando uniformizar a qualidade dos alunos que saem independentemente da universidade que frequentam. Penso que seria uma medida algo correcta senão meus amigos a este ritmo estamos com o mercado saturado e o pior é que por vezes com tanto aluno a entrar também diminui a qualidade de ensino..e não me digam que Bolonha vai resolver isso

    cumprimentos

  8. Victor Figueiredo Says:

    Também concordo, Jacinto. Sobretudo com a diminuição de vagas. A ideia de que os cursos de engenharia são os que mais saída têm no mercado, já há algum tempo que é falsa.

  9. Tiago Cunha Says:

    O problema dos alunos portugueses que conseguíram entrar no curso de medicina em Espanha foi como o xm carreira expôs. Pelo que soube, a prova de lingua espanhola filtrava muitos alunos portugueses e o governo espanhol considerou que essa prova não tinha sentido pois o português é parecido. Foram imprudentes, e com isso ficaram com um problema para resolver pois é perfeitamente natural que estudantes espanhóis fiquem insatisfeitos por não entrarem devido a estas (in)decisões.

    Quanto às engenharias em Portugal, não adianta esperarmos milagres. Vai ser como sempre… só vão começar a fechar a torneira depois de se dar a inundação. Infelizmente neste país os políticos costumam actuar ao retardador e de preferência no espaço de tempo que antecede eleições.

  10. Uma Recém Licenciada desempregada Says:

    Boa tarde!

    Gostaria de saber quais são as competências de um Licenciado em Engenharia Civil, não estando inscrito em nenhuma associação. Qual a legislação que refere quem pode fazer o quê, esteja ou não inscrito em alguma associação da área?

    Cumprimentos.

  11. Jacinto Sepúlveda Says:

    cara “uma recém licenciada desempregada (lol..eu tb estou), se fores a este link

    https://engenhariacivil.wordpress.com/legislacao/exercicio-de-actividades/

    encontrarás informação referente ao que pode fazer um engenheiro, e quais os requisitos a verificar.

    cumprimentos

  12. Joana Moreira Says:

    Antes demais, devo dizer que a discussão aqui abordada é também um assunto que me preocupa muito. Estou no ultimo semestre do curso e o se prevê de bom não tem nada. Ao tentar procurar, aqui na net, ofertas de emprego, deparo-me sempre com a mesma barreira “1 ou 2 anos de experiência”, “mais de 5 anos de experiência”, etc…raras são as ofertas que assentam em recém-licenciados. Ora, se não me deixarem trabalhar como ganho experiência? Serei obrigada a trabalhar como uma escrava para poder ter algum sucesso? O dinheiro que os meus pais investiram na minha educação foi um desperdício?
    Já agora, quanto ao processo de Bolonha trouxe apenas : confusão, desentendimentos entre professores, horários caóticos, disciplinas a menos (logo menos preparação a meu ver), e querem saber o melhor? Agora faz parte das disciplinas obrigatórias Historia da Tecnologia, pode ser muito interessante…mas não fazem mais falta discplina como Estruturas Mistas ou Engenharia Sismica?
    Não digo sem conhecimento, pois convivo todos os dias com colegas que já se entram no processo de Bolonha e o que eles têm a dizer também não é positivo.

  13. Tiago Cunha Says:

    Joana, pela experiência que tive nunca verás muitos anúncios à procura de recém licenciados. Não porque as empresas não procurem, mas sim porque recebem tantas candidaturas espontâneas que não lhes vale a pena publicitar o lugar. Em mãos têm 10 vezes mais (imaginemos) CV’s do que o número de pessoas que desejam entrevistar. Nos meses de Julho/Agosto/Setembro há empresas que recebem centenas de CV’s de recém-licenciados.

    Portanto o conselho que te dou é assim que acabares o curso (ou mesmo umas semanas antes) envia o teu CV para todas as empresas que te interessarem (os critérios para a escolha das mesmas serão os teus, como é óbvio) e depois tem paciência. Tanto podes arranjar algo de uma semana para a outra como ter que esperar 2 ou 3 meses. É imprevisível o tempo de espera.

    Outro conselho que te dou é se tiveres o factor C em algum lado (empresa, câmara, etc) não hesites em usa-lo. Se não usares tu, outro irá usar. Desde que vás para lá para trabalhar, não hesites. Sei que este conselho pode ser criticado por alguns, mas quantos desses que criticam recusariam uma entrada num emprego bom por causa do factor C? Pois…

    Boa sorte!

  14. XITO Says:

    sou arquitecto de segunda geração. acho graça porque nos requesitos para empregos de arquitectura é necessario ser formado em informatica, então quem vai estudar estes grandes mestres Sigriefid Giedieon ou Camille Sitte ou le Corbusier ou Frank Loid Write, o Siza ou o sr. Tavora o Pedro Vieira de Almeida,o souto moura e tantos outros que cada dia populam as nossas livrarias a quixarem-se do nivel dos estudantes sem considerar os da cultura geral , que se demora dez anos no miimo a adquirir, ja sem falar nos metodos que se querem do desenho e da recolha.Caramba mas o nosso pais ate que e grande e bem provido de genios alem de ARTESÃOS COMPETENTES E LICENCIADOS.Ou sera que estes patrões se meteram em negicios de computador e não sabem trabalhar com eles e o que querem e desenhadores licenciados.QUERES BARATO É VAI ESTUDAR TU MEU PREGUIÇ, QUE SABES É ESTAR SENTADO O DIA TODO A ARMAR AO LICENCIADO QUE NEM O CURSO FIZESTE FOSTE LICENCIADO PELA JUSTIÇA SOCIAL,
    ATENCIOSAMENTE
    XITO PEEIRA DA COSTA

  15. Pedro Says:

    Estive a ler este artigo e achei interessantíssimo. Sou estudante finalista de Engenharia e como todos voces nao estou nada contente com a situação, nada mesmo.
    Como toda a gente disse e com razao, os recem licenciados/mestres sao mal pagos, explorados e desempenham funçoes que nao têm muito a ver com a sua competencia, apenas pela ânsia de trabalhar. Mas ao contrario dos intervenientes na discussao, nao penso que o problema seja dos patroes e das empresas.
    Ora vejamos, se voces fossem patroes será que iriam oferecer 2000 euros mensais a um Eng Civil recem licenciado, quando há muitos Eng Civis vindos de boas faculdades a oferecerem-se por 700? Ou Eng Civis experientes a 1000 euros? O patrao vizinho do lado escacava-se a rir .. As empresas podem inclusivamente aproveitarem-se de fundos estatais, nomeadamente programa InovJovem, e nem sequer gastam um tusto com a mao de obra, contratando sucessivamente estagiarios a um ano, tudo pago pelo estado … Por isso nao os culpem, os empresarios apenas procuram a melhor alternativa ao melhor preço! Afinal de contas os objectivos de uma empresa nao sao os lucros?

    Quanto a mim, o problema é meramente uma questao matematica: Poucos pães para muitos esfomeados, logicamente que resulta em muita gente a oferecer-se por migalhas. Depois dentro dos esfomeados há quem mereça comer (bem qualificados) e quem nao mereça assim tanto (mal qualificados), mas note-se que mesmo assim muitos paezinhos, principalmente os estatais (com o seu factor C) sao entao comidos por quem nao merece, piorando a situaçao que por si so ja é caotica …

    Para analisar esta questao, quanto a mim teremos de fazer uma analise ainda mais profunda. Tudo deriva dos anos 90, em que foram abertas dezenas e dezenas de Universidades privadas e Institutos de Cascos de Rolha, muitas delas sem o minimo de exigencia e preparação, que vieram a inundar o mercado de Engenheiros e Doutores. Ora, nos anos 90, a economia embora débil, ainda crescia, e o numero de licenciados ainda era aceitavel, resultado de uma geracao anterior pouco qualificada. Nestes anos ter um curso ainda era sinonimo de alguma coisa.

    Contudo, com o passar dos anos, mais e mais Estabelecimentos foram abertos, mais e mais alunos admitidos, e essa espiral até hoje ainda nao parou, de tal forma que de ano para ano se aumenta o numero de vagas e numero de cursos (MAS ESTA GENTE TA DOIDA??) … Ora, se a economia crescesse e se tornasse competitiva, esta situaçao por si só ja nao seria facil .. O problema é que ainda por cima a economia entrou em recessao e a maioria das empresas Portuguesas de hoje em dia nao passam de sucata.

    Todos estes factores conjugados, resultaram entao na situaçao que vivemos hoje em dia: muitos estudantes superiores e familias que fazem das tripas coraçao para tirar um curso, e quando o têm na mao, verificam que ele vale muito pouco, e que se calhar nao valeu a pena o esforço. No lado oposto muita gente que nao merece e se calhar tirou o curso a brincar ocupa bons cargos estatais, como resultado da podridao da cunharia, apenas agravando o fosso de injustiça.

    Assim sendo o tipico licenciado de hoje em dia é um verdadeiro “case study”: muita gente que merece e nao tem ou tem pouco, muitos que nao merecem e têm, há de tudo e cada vez mais as coisas nao dependem do curso que se tem ou da faculdade onde se tirou.

    Na minha opiniao, nunca foi tao determinante ter pais ricos como actualmente. Porque da maneira que as coisas estao, com o custo de vida e a torneira a jorrar cada vez mais e mais doutores e engenheiros, de que maneira os jovens de hoje em dia sem pais ricos conseguirão ter uma vida estavel, com os salarios miseraveis a que estao sujeitos?

    Enfim desculpem o testamento, mas já há uns tempos que queria dar a minha opiniao sobre este assunto, que acho pertinente e da maior importancia para todos os jovens, espero nao ter maçado.

    Cumprimentos

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